25.7.08

Texto - O Fenômeno Grêmio

Como explicar que um time como o Grêmio lidere, com justiça, o Campeonato Brasileiro? No papel, Flamengo, São Paulo, Palmeiras, Internacional e talvez até o Cruzeiro tenham elencos melhores do que o gremista.

Vi 12 dos 14 jogos do Grêmio, vou me arriscar a tentar decifrar o enigma tricolor. Não é simples, vale lembrar que o Grêmio carrega o trauma de um primeiro quadrimestre desastroso. Estava bem no Gauchão e, numa bela tarde, caiu para o Juventude no Estádio Olímpico. Na Copa do Brasil, outro vexame caseiro, eliminação para o Atlético-GO. Era para ter caído o técnico Celso Roth, e ele sobreviveu.

Das cinzas, o time foi remontado sob o esquema de três zagueiros. Eis o cimento gremista, o início de tudo. Uma zaga sólida formada por Léo, Pereira e Réver. Eficiente na defesa e decisiva quando ia para a área adversária. Pereirão, remanescente da Batalha dos Aflitos em 2005, é um desastre com os pés. Chegou a ser constrangedor no Grenal do 1 x 1 perceber que o time colorado marcava todos os jogadores gremistas, menos Pereira. Valia a pena deixá-lo com a bola... Pelo alto, porém, Pereira está entre os melhores cabeceadores do Brasil. Léo é fraco por cima, excelente por baixo. Réver não compromete. Essa zaga, com a ajuda decisiva do goleiro Victor, líder da Bola de Ouro, assegurou a defesa menos vazada do campeonato.

Ter uma defesa forte que toma pouquíssimos gols (11, apenas) e que ainda vai ao ataque marcar gols explica algumas vitórias tricolores. Mas a explicação fica pela metade. O Grêmio viveu nas primeiras dez partidas do talento de Roger e da impressionante capacidade do meia na cavação de faltas, pênaltis e cartões para os adversários. Quando Roger se foi para o mundo árabe, parecia que o Grêmio iria desmoronar.

Pois não foi o que aconteceu, o time ficou melhor. Primeiro, porque Roger, ao sair intempestivamente do clube na véspera do jogo contra o Botafogo, enfureceu a diretoria e desagradou os companheiros. O herói virou vilão, o laço emocional com o principal jogador estava desfeito.
Segundo, porque a saída de Roger coincidiu com a chegada do organizador do meio-campo Tcheco e com a volta do contundido William Magrão, que desbancou o experiente volante Eduardo Costa. Tcheco e Magrão botaram a bola no chão, algo novo em um time que sobrevivia das cabeçadas dos zagueiros e do centroavante grandalhão Marcel.

Nas últimas partidas, o ala-esquerdo Anderson Pico entrou no time no lugar do limitado Helder. Não que Pico seja craque, pois não é mesmo. Mas o veloz ambi-destro gosta também de jogar com a bola no chão. Com ele, duas vitórias importantes, Cruzeiro em casa e a goleada contra o Figueirense fora.

Por fim, dois mistérios, Perea e Paulo Sérgio. Como explicar esses dois jogadores? Perea é capaz de errar todos os lances em uma partida e acertar todos na outra, como nos 7 x 1 de Florianópolis. O lateral Paulo Sérgio tem uma boa bola parada e uma vontade comovente de ajudar o time. E só. Não possui recursos técnicos, mas, de vez em quando, é como se escutasse uma voz dizendo "você é craque". Paulo Sérgio acredita na voz e faz partidas surpreendentes.

Esse Grêmio mambembe lidera o campeonato. Celso Roth tem grande participação no resultado. Faz champanhe com uvas ordinárias. Aí está a preocupacão da torcida. Roth tem um histórico de grandes arrancadas e finais melancólicos. Como se envenenasse com o próprio sucesso. Precisa contrariar a própria história para conseguir o feito de fazer o Grêmio passar a perna em elencos melhores do que o seu.


Escrito por Sérgio Xavier às 00:05
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